sábado, 21 de junho de 2008

Paulinha dos Milagres

Paulinha entrou na igreja e, em passos largos, dirigiu-se até o confessionário. Seu vestido preto até os joelhos deixavam-na parecendo mais velha do que realmente era. O pequeno chapéu que usava caía-lhe muito bem, mas a renda que cobria seus olhos dava-lhe certo ar de culpa. E Paulinha sentia-se tão culpada que os dedos suavam frios e tremiam sutilmente.
Fazia um ano que não se confessava e seu coração, agora transbordando uma dor silenciosa, batia cada vez mais descompassado. Coração esse que lhe levou a pecar. Mal podia acreditar que isto pudesse algum dia acontecer. Nunca se imaginou uma dessas mulheres que saem com homens casados. “Foi apenas uma vez”, dizia ela, tentando se explicar. Passaram-se meses, Paulinha até mesmo encontrara um novo amor, mas não conseguia tirar da cabeça o que fizera.
Paulinha sentia-se suja. Apertou seu crucifixo com força e clamou perdão. Pediu perdão por ter caído em tentação. Mas principalmente, pediu perdão por ter feito aquela pobre mulher sofrer. E era isto que mais lhe doía. Paulinha sabia que a mulher havia descoberto a pulada de cerca do marido, e sabia que ela agora sofria. Então passou a noite em claro, olhando-se no espelho com desdém.
Por um momento ela odiou-se. Não bastou ir à igreja se confessar. Não bastou passar a noite em claro chorando. Não bastou extravasar seus sentimentos em uma folha de papel. E, então, bateu-lhe um leve desespero. Como pudera ter feito o que fez? Como pôde cair em frases feitas de um homem sem caráter? Logo ela, Paulinha dos Milagres, uma mulher de princípios e incontáveis virtudes. “Como pude?”, perguntava-se entre lágrimas, agarrando-se no travesseiro.
“Calma, Paulinha”, uma voz lá dentro dela retumbava, de novo e de novo. Aos poucos foi sentindo-se leve e adormeceu cansada, às 5 horas da manhã. E Paulinha sonhou. Estava em um imenso campo de flores. Mas elas eram feitas de papel e eram pintadas de roxo. O céu era cheio de nuvens. Mas eram nuvens de algodão doce, de todas as cores. De repente, o céu escureceu e a chuva começou a cair gelada. Aos poucos, as flores de papel foram se desmanchando, e a tinta roxa escorria grossa e suja, espalhando-se no chão. Paulinha não tinha pra onde ir, então tudo o que podia fazer era sentir a chuva molhando o seu corpo, e destruindo aquele cenário de aquarela.
Quando o sol voltou a brilhar ela olhou para o chão e, pasma, observou que as flores de papel haviam sumido. Daquele solo agora úmido e fértil, brotavam pequenas flores de verdade. Flores de todas as cores e de todos os tipos. E ela podia sentir o cheiro da natureza. O que era papel agora era vida.
Então Paulinha acordou subitamente. Já não se sentia mal. Ela se lembrou do seu sonho e daquela voz que lhe sussurrava no ouvido “calma, Paulinha, calma”. E ela sorriu. Levantou e colocou a sua roupa mais colorida. Encontrava-se agora mais tranqüila.
Paulinha sabia, agora, que nada pode ser levado tão a sério, a não ser a nossa própria felicidade. De que adiantam expectativas se elas apenas nos deixam mais cruéis com nós mesmos? De que adianta sofrer pelo passado se a vida se encontra no presente? De que adiantam flores de papel se elas escondem as flores que realmente merecem ser vistas? Então ela deixou seu pequeno erro no passado, e, pela primeira vez, observou seu lindo futuro desabrochando nos olhos do seu amor.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Alguém?

Alguém me explica o que está acontecendo?
Alguém, por favor, me mostra direitinho o que eu não estou enxergando?
E aponta esticando bem o dedo pra que eu não tenha desculpa de dizer que não vi?
Alguém aí sabe por que eu to me escondendo?
Sabe por que eu fiquei com medo de não ser vista e acabei me enfiando em um buraco que nem eu mesma me encontro mais?
Alguém sabe por que eu fiz isso?
Será que alguém tem opinião formada sobre mim?
Ou sou eu só mais uma que circula por aí?
Alguém aí sabe meu nome? Mas meu nome completinho, sem abreviações?
Pelo amor de deus, alguém poderia me explicar o que houve que eu parei de viver?
E me explica por que eu comecei a errar tanto? A tropeçar tanto? A meter tanto as mãos pelos pés? Ou seriam os pés pelas mãos?
Viu?
Alguém me diz por que eu confundo tudo?
Será que alguém ainda gosta de mim?
Depois de tudo o que eu fiz?
E alguém me diz se tenho chances de ser amada agindo assim?
Tem alguém por aí que pode me dizer exatamente porque meu coração bate tão forte que eu sinto ele na minha garganta?
E porque quando eu sinto ele na minha garganta parece que eu vou sufocar?
Alguém abre o meu peito e investiga meu coração? E descobre porque ele tá fazendo isso comigo?
Alguém pega ele nas mãos, vira ele pra lá e pra cá, aperta e se certifica que ele tá são?
E eu? Alguém me diz se eu to sã? Porque eu acho q não...
Alguém me da um beijo de verdade? Um beijo com vontade?
Alguém bem legal, diz que quer ficar comigo só porque gosta de ta comigo e não porque quer uma folga da namorada?
Será que alguém pode me escutar?
Oi?
Tem alguém ai?
É.. também achei que não...

No Balanço

A garotinha no balanço olha dispersa os outros brinquedos no parquinho. Ela está sozinha, não há nenhuma outra criança brincando por lá. Ela se balança devagar enquanto observa as árvores ao redor. Cada galho com um passarinho, cada folha com uma formiguinha.
A garotinha sente a ponta dos pés descalços roçando na grama verde. A grama recém cortada, com cheiro dela molhada da garoa que caía.
Sozinha, ali no balanço, sentia a fina chuva caindo no rosto, as gotinhas formando na testa, os cabelos úmidos. A garotinha pensava como era bonito tudo aquilo. A garoa caindo enquanto o sol ainda brilhava. Ela pensava que, talvez, o sol era corajoso o bastante para não permitir que a chuva caísse com mais força.
Corajoso esse sol. Ela olha como ele se impõe e prevalece por detrás das nuvens negras, que se vão aos poucos, furtivas.
A garotinha invejava tamanha coragem. Já que ela, pequena inocente, permanecia inerte naquele balanço. Ela sentia ainda na boca o gosto da limonada que tomara antes de sair de casa. E ela saiu correndo, assustada, não deu tempo nem de colocar algum calçado.
Hoje a garotinha no balanço, de vestidinho xadrez, fugiu de casa. Com medo do pai que gritava. Com medo da mãe que chorava. Ela sentou no balanço e sentiu que não teria mais forças para levantar. Os pés já estavam agora gelados, tocando na grama molhada com a ponta dos dedos. As mãos no rosto, escondendo os olhos. "Não olha pra mim, corajoso sol", pensava a garotinha.
Ela não se sentia merecedora de tanta luz. Sentia-se covarde. Não tinha coragem de voltar para casa, embora sabendo que não havia outro lugar para onde pudesse ir. "O que vai ser de mim?", perguntava-se ela.
O sol tem destino certo. Ele sabe da onde vem e para onde vai. A garotinha? Ela sabe apenas que é naquele balanço a primeira vez que se sentiu tão confortavelmente tranqüila, e em paz.

Mariana de luz

Pele morena do sol, Mariana tem cheiro de praia e corpo de sereia. Cabelo preto da cor dos olhos de jabuticaba, ela balança o rabo de cavalo enquanto caminha descalça no chão quente. Mariana tem um sorriso branco da cor da lua e uma risada que lembra o som de crianças brincando na rua em uma tarde gostosa. De vez em quando bate a tristeza e Mariana chora. E as suas lágrimas têm gosto de água doce do mar. Ela não gosta de maquiagem e sai sempre de cara lavada. Mariana tem aquela beleza natural. E as meninas a odeiam por isso. E os meninos a amam por isso. Mas ela não dá bola pros meninos. Mariana sabe curtir a vida sem namorados ou rolinhos. Mariana tem seu próprio estilo. E nunca precisou de ninguém. Ela tem uma vida simples e um gosto simples também.
Mariana gosta de feijão com arroz e nunca fez dieta. Ele come uma barra de chocolate por dia e nunca recusa uma ida a sorveteria. E Mariana nunca entrou numa academia. Ela odeia aquelas menininhas loiras pintadas e de unhas vermelhas desfilando de roupinhas coladas fingindo que malham enquanto procuram o próximo gatinho da vez. Aliás, Mariana não pinta as unhas. Vez que outra passa um esmalte incolor. E ela tem unhas lindas, e não dá a mínima pra isso. Mariana não dá a mínima pra um monte de coisa que a maioria das meninas da idade dela se preocupa. Mariana tem um cabelo naturalmente liso que nem precisa pentear. E ela nunca trocou de shampoo. Nem usa hidratante. Creme pras mãos? Ela nem sabe o que é. Mariana não tem silicone e não sabe o que é drenagem linfática. E ela não tem celulite. Nem olhando de lupa. Mariana não usa salto alto. E ela é pequenina, com orgulho.
No alto dos seus 17 anos Mariana é feliz. Mas no meio do caminho, mal sabe ela o que lhe espera. Tudo era perfeito, até aquele dia. Simples, pelo menos até aquele momento. O momento que ele apareceu. Mariana não costumava reparar no sexo oposto, mas por um minuto - que pareceu uma eternidade - ela reparou. E ela o viu esmiuçadamente, cada detalhe do rosto e das mãos. Como se abrisse os olhos pela primeira vez na vida, Mariana se apaixonou. E tudo ficou complicado. Pelo menos naquele inesperado instante. Tudo ficou incrivelmente mais agitado, e as emoções dentro de Mariana que embalavam como calmas ondas de um mar transparente viravam uma tormenta. Um verdadeiro ciclone turvo. E ela enlouqueceu por um minuto. Exatamente um minuto. Foi o tempo suficiente para que seu corpo mudasse de tal forma que ela se estranhava. E pela primeira vez na vida o coração dela batia descompassado, não mais ao ritmo do mar. Pela primeira vez na vida, o dia ficou ligeiramente nublado, e o calor que Mariana irradiava foi-se aos poucos esfriando, como um dia de sol que termina em temporal.
Foi um minuto interminável. Mas foi apenas um minuto. A fulminante paixão passou assim que perdeu o rapaz de vista. E Mariana voltou a sentir-se Mariana. Com o sol no lugar do coração e um mar inteiro por dentro. De pés no chão e cabelo ao vento, Mariana seguiu sendo aquela morena que brilha. Morena que reluz. O turbilhão de um minuto foi algo tão assustador que ela se recusara a sentir-se tão confusa novamente. Tão nas nuvens quando seu lugar é na terra, sentindo a areia por entre os dedos. Mariana não vai mais se apaixonar, imagine sentir-se daquela forma por meses inteiros, como suas amigas! Imagine então o amar! Mariana jurou que nunca mais. Nunca mais. Até aquele dia, com já seus 21 anos. Até aquele dia. E por um instante ela morreu por dentro e pediu socorro. Só que dessa vez o rapaz não seguiu andando. Ele parou. Ele reparou. E Mariana enlouqueceu de novo. E dessa fez crescia dentro dela um furacão.
E ele estendeu a mão pra ela, como se prometesse proteção eterna. Sorriu gentilmente como quem entendia cada sensação, cada onda que batia mais forte na costa. Mariana lutou contra, mas foi mais forte do que ela. E de mãos dadas eles compartilharam aquela confusão propagada de sentimentos exagerados e cegos. E às vezes eles até percebiam sutilmente a presença da felicidade. Sutilmente. Mas nada mais era igual. Mariana não era mais tão simples. E ele exigia mais, cada vez mais, e não se contentava com a simplicidade. Ele queria tudo exagerado, tudo gritante. Ele queria exibi-la pros amigos e esnobá-la pelas costas. Ele amava, mas mal sabia o que era amar. E Mariana perdeu-se. O sol finalmente perdeu sua força e deu lugar para uma escuridão triste e monótona. Mariana não era mais Mariana. Era só mais uma. Só mais uma garota complicada, confusa e estranha. Uma estranha na própria pele. Mariana com olhos de jabuticaba, agora era Mariana com olhos uvas passas. Murchos. Feios. Cansados.
Daí ele, não sabendo amar ou amando mais a si mesmo, foi-se embora. Largou a mão de Mariana no meio do caminho e atalhou na curva mais próxima. Mas não foi sozinho. Levou um souvenir. Levou um pedaço, bem generoso, do coração de Mariana. Levou consigo, no bolso, como se exclamasse "Viu? Eu te amei, sim! Um dia.". E ela ficou ali, sozinha, perdida, cutucando com o dedo o buraco que ele deixou quando arrancou aquele pedacinho. Aquele buraco fundo que ficou no seu peito. Um buraco negro. Mariana jurou que nunca mais ia amar de novo. Jurou nunca mais. Nunca mais, de novo. Seria tarde para voltar a ser aquela menina de antes? Mariana tem saudades daquela menina que costumava ser. Saudade dela mesma.
Mariana resolveu seguir em frente. Passos tranqüilos pra ver se consegue voltar ao que era antes. Devagar, pra ver se sua alma se recupera e volta a brilhar. Mariana deu exatamente dez passos e quando olhou adiante, foi aquele o minuto mais maravilhoso de sua vida. Lá vinha alguém, cheio de luz segurando com uma das mãos o pedaço que faltava do seu coração, enquanto a outra segurava a mão de uma menina tão iluminada quanto ele. Era Mariana. Ou pelo menos aquela que costumava ser.

Carpe Diem - Para Cacá...

Ontem eu lembrei como eu adorava aparecer de surpresa no seu apartamento. Eu saía de casa sem rumo e aparecia na tua porta. Tinha dias em que tudo o que eu queria era sair de casa e escapar por um momento. Respirar fundo. E era contigo que encontrava meu refúgio, meu fôlego. Eram as tuas palavras que me serviam de conforto. Às vezes bastava-me um olhar seu, e tudo se normalizada no meio peito.
Dia desses saí sem rumo outra vez, e fui parar na sua porta - instintivamente. Mas dessa vez você não estava lá pra me atender. Você não está mais lá... Até escrever isso dói. Eu fiquei lembrando tudo o que já compartilhamos. Tantos momentos importantes da minha vida que passei junto de ti, que você presenciou sempre me dando força. Tanta história pra contar. E por um momento - parada ali na frente do teu apartamento - eu quis acreditar que se eu fechasse os olhos e me concentrasse você estaria lá me esperando quando os abrisse de novo. Você e seu chimarrão.
Saudades dos mates, aliás. Dos estudos. Das risadas. Dos desabafos. Dos trabalhos. Das folhinhas emprestadas. Dos conselhos. Do silêncio. Das risadas. Até de fazer tua rematrícula na faculdade dá saudade. Quando vou fazer a minha parece que estou sempre esquecendo alguma coisa. Saudade disso tudo, bem aqui apertadinho no peito. E naquele dia eu tinha tanta coisa pra contar. Tanta coisa entalada na garganta. Mas eu não queria contar pra ninguém. Queria contar pra você. E era você que queria agora. Alguém que realmente pudesse entender. E eu nunca pensei que alguém pudesse fazer tanta falta na vida da gente. Você e esse um metro e meio deixaram um rombo aqui de quilômetros.
E o tempo me dói porque ele passa rápido demais. E porque ele não volta jamais. E tudo o que eu queria durante os dez minutos que fiquei ali parada naquela rua tão familiar, era que não doesse tanto...