sexta-feira, 20 de junho de 2008

Mariana de luz

Pele morena do sol, Mariana tem cheiro de praia e corpo de sereia. Cabelo preto da cor dos olhos de jabuticaba, ela balança o rabo de cavalo enquanto caminha descalça no chão quente. Mariana tem um sorriso branco da cor da lua e uma risada que lembra o som de crianças brincando na rua em uma tarde gostosa. De vez em quando bate a tristeza e Mariana chora. E as suas lágrimas têm gosto de água doce do mar. Ela não gosta de maquiagem e sai sempre de cara lavada. Mariana tem aquela beleza natural. E as meninas a odeiam por isso. E os meninos a amam por isso. Mas ela não dá bola pros meninos. Mariana sabe curtir a vida sem namorados ou rolinhos. Mariana tem seu próprio estilo. E nunca precisou de ninguém. Ela tem uma vida simples e um gosto simples também.
Mariana gosta de feijão com arroz e nunca fez dieta. Ele come uma barra de chocolate por dia e nunca recusa uma ida a sorveteria. E Mariana nunca entrou numa academia. Ela odeia aquelas menininhas loiras pintadas e de unhas vermelhas desfilando de roupinhas coladas fingindo que malham enquanto procuram o próximo gatinho da vez. Aliás, Mariana não pinta as unhas. Vez que outra passa um esmalte incolor. E ela tem unhas lindas, e não dá a mínima pra isso. Mariana não dá a mínima pra um monte de coisa que a maioria das meninas da idade dela se preocupa. Mariana tem um cabelo naturalmente liso que nem precisa pentear. E ela nunca trocou de shampoo. Nem usa hidratante. Creme pras mãos? Ela nem sabe o que é. Mariana não tem silicone e não sabe o que é drenagem linfática. E ela não tem celulite. Nem olhando de lupa. Mariana não usa salto alto. E ela é pequenina, com orgulho.
No alto dos seus 17 anos Mariana é feliz. Mas no meio do caminho, mal sabe ela o que lhe espera. Tudo era perfeito, até aquele dia. Simples, pelo menos até aquele momento. O momento que ele apareceu. Mariana não costumava reparar no sexo oposto, mas por um minuto - que pareceu uma eternidade - ela reparou. E ela o viu esmiuçadamente, cada detalhe do rosto e das mãos. Como se abrisse os olhos pela primeira vez na vida, Mariana se apaixonou. E tudo ficou complicado. Pelo menos naquele inesperado instante. Tudo ficou incrivelmente mais agitado, e as emoções dentro de Mariana que embalavam como calmas ondas de um mar transparente viravam uma tormenta. Um verdadeiro ciclone turvo. E ela enlouqueceu por um minuto. Exatamente um minuto. Foi o tempo suficiente para que seu corpo mudasse de tal forma que ela se estranhava. E pela primeira vez na vida o coração dela batia descompassado, não mais ao ritmo do mar. Pela primeira vez na vida, o dia ficou ligeiramente nublado, e o calor que Mariana irradiava foi-se aos poucos esfriando, como um dia de sol que termina em temporal.
Foi um minuto interminável. Mas foi apenas um minuto. A fulminante paixão passou assim que perdeu o rapaz de vista. E Mariana voltou a sentir-se Mariana. Com o sol no lugar do coração e um mar inteiro por dentro. De pés no chão e cabelo ao vento, Mariana seguiu sendo aquela morena que brilha. Morena que reluz. O turbilhão de um minuto foi algo tão assustador que ela se recusara a sentir-se tão confusa novamente. Tão nas nuvens quando seu lugar é na terra, sentindo a areia por entre os dedos. Mariana não vai mais se apaixonar, imagine sentir-se daquela forma por meses inteiros, como suas amigas! Imagine então o amar! Mariana jurou que nunca mais. Nunca mais. Até aquele dia, com já seus 21 anos. Até aquele dia. E por um instante ela morreu por dentro e pediu socorro. Só que dessa vez o rapaz não seguiu andando. Ele parou. Ele reparou. E Mariana enlouqueceu de novo. E dessa fez crescia dentro dela um furacão.
E ele estendeu a mão pra ela, como se prometesse proteção eterna. Sorriu gentilmente como quem entendia cada sensação, cada onda que batia mais forte na costa. Mariana lutou contra, mas foi mais forte do que ela. E de mãos dadas eles compartilharam aquela confusão propagada de sentimentos exagerados e cegos. E às vezes eles até percebiam sutilmente a presença da felicidade. Sutilmente. Mas nada mais era igual. Mariana não era mais tão simples. E ele exigia mais, cada vez mais, e não se contentava com a simplicidade. Ele queria tudo exagerado, tudo gritante. Ele queria exibi-la pros amigos e esnobá-la pelas costas. Ele amava, mas mal sabia o que era amar. E Mariana perdeu-se. O sol finalmente perdeu sua força e deu lugar para uma escuridão triste e monótona. Mariana não era mais Mariana. Era só mais uma. Só mais uma garota complicada, confusa e estranha. Uma estranha na própria pele. Mariana com olhos de jabuticaba, agora era Mariana com olhos uvas passas. Murchos. Feios. Cansados.
Daí ele, não sabendo amar ou amando mais a si mesmo, foi-se embora. Largou a mão de Mariana no meio do caminho e atalhou na curva mais próxima. Mas não foi sozinho. Levou um souvenir. Levou um pedaço, bem generoso, do coração de Mariana. Levou consigo, no bolso, como se exclamasse "Viu? Eu te amei, sim! Um dia.". E ela ficou ali, sozinha, perdida, cutucando com o dedo o buraco que ele deixou quando arrancou aquele pedacinho. Aquele buraco fundo que ficou no seu peito. Um buraco negro. Mariana jurou que nunca mais ia amar de novo. Jurou nunca mais. Nunca mais, de novo. Seria tarde para voltar a ser aquela menina de antes? Mariana tem saudades daquela menina que costumava ser. Saudade dela mesma.
Mariana resolveu seguir em frente. Passos tranqüilos pra ver se consegue voltar ao que era antes. Devagar, pra ver se sua alma se recupera e volta a brilhar. Mariana deu exatamente dez passos e quando olhou adiante, foi aquele o minuto mais maravilhoso de sua vida. Lá vinha alguém, cheio de luz segurando com uma das mãos o pedaço que faltava do seu coração, enquanto a outra segurava a mão de uma menina tão iluminada quanto ele. Era Mariana. Ou pelo menos aquela que costumava ser.

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