sexta-feira, 20 de junho de 2008

No Balanço

A garotinha no balanço olha dispersa os outros brinquedos no parquinho. Ela está sozinha, não há nenhuma outra criança brincando por lá. Ela se balança devagar enquanto observa as árvores ao redor. Cada galho com um passarinho, cada folha com uma formiguinha.
A garotinha sente a ponta dos pés descalços roçando na grama verde. A grama recém cortada, com cheiro dela molhada da garoa que caía.
Sozinha, ali no balanço, sentia a fina chuva caindo no rosto, as gotinhas formando na testa, os cabelos úmidos. A garotinha pensava como era bonito tudo aquilo. A garoa caindo enquanto o sol ainda brilhava. Ela pensava que, talvez, o sol era corajoso o bastante para não permitir que a chuva caísse com mais força.
Corajoso esse sol. Ela olha como ele se impõe e prevalece por detrás das nuvens negras, que se vão aos poucos, furtivas.
A garotinha invejava tamanha coragem. Já que ela, pequena inocente, permanecia inerte naquele balanço. Ela sentia ainda na boca o gosto da limonada que tomara antes de sair de casa. E ela saiu correndo, assustada, não deu tempo nem de colocar algum calçado.
Hoje a garotinha no balanço, de vestidinho xadrez, fugiu de casa. Com medo do pai que gritava. Com medo da mãe que chorava. Ela sentou no balanço e sentiu que não teria mais forças para levantar. Os pés já estavam agora gelados, tocando na grama molhada com a ponta dos dedos. As mãos no rosto, escondendo os olhos. "Não olha pra mim, corajoso sol", pensava a garotinha.
Ela não se sentia merecedora de tanta luz. Sentia-se covarde. Não tinha coragem de voltar para casa, embora sabendo que não havia outro lugar para onde pudesse ir. "O que vai ser de mim?", perguntava-se ela.
O sol tem destino certo. Ele sabe da onde vem e para onde vai. A garotinha? Ela sabe apenas que é naquele balanço a primeira vez que se sentiu tão confortavelmente tranqüila, e em paz.

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