quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Flecha na Areia

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Um mundo à parte de tudo o que já vira antes. Uma fantasia regular que sonhava acordado todos os dias, desde criança. Uma possibilidade de um futuro melhor. Uma saída melhor. Furtiva e sem alardes. Sonhava com a possibilidade de poder ir-se embora quando bem entendesse. Sem precisar dar explicações ou motivos plausíveis. Ele sentia essa vontade recorrente dentro do seu âmago, latejando e pulsando como um coração ferido.
Quando se viu na possibilidade de fuga, ergueu-se com coragem e assim como imaginara tantas vezes, ele partiu. E foi feliz, rápido, não se permitindo olhar pra trás nem se arrepender. Falava sozinho na intenção de se convencer de que o que fazia era o que deveria fazer. Mas não deixava de pensar nas pessoas que ele não tinha a intenção de deixar para trás, mas inevitavelmente as deixava. Eram outros que lhe incomodavam. Que lhe afligiam. Mas sempre existem uns que nos preenchem em seus breves momentos conosco. E eram estes uns e outros que ele sentiria falta. E já no meio do caminho sentia as dores do abandono. E partes que ele nem sabia que existiam começavam a doer.
Quando finalmente chegou no final de sua viagem, encontrava-se em meio a estranhos e ainda mais estranhos lhes pareciam tão de perto. Cada rosto e cada gesto lhe denotavam pessoas de outra realidade e dimensão. O que fazia com que sentisse ainda mais a falta daqueles uns que deixaram pra trás sem intenção. De vez em quando ele recebia uma mensagem e tentava não pensar. Pois pensar o remetia a lembranças que tentava esquecer. Uma vida totalmente nova o esperava dessa vez. E ele não pretendia desistir da idéia tão facilmente.
Desenhando uma flecha naquela areia branca da praia ele sentia forças pra gritar. Forças pra transparecer o que tanto gostaria de refletir e ser. Deixando as arestas soltas ele podia sentir a emoção de ser outra pessoa. Aquela adormecida no seu íntimo. Aquele que ele sabia que era, mas que nunca tivera a chance de transparecer. Observando as ondas daquele mar translúcido ele sabia que tinha feito a escolha certa. Pois aqueles estranhos logo não seriam tão estranhos assim. E ele não seria tão estranho a si mesmo. Ele sabia. E ele sorria.
De vez em quando alguém perguntava se ele estava bem. Porque ele não pulava, não mostrava êxtase. Apenas sorria, parado. Ele estava em êxtase, mas estava paralisado por tantos pensamentos que lhe invadiam a mente. Pensava como pudera viver todo esse tempo sem nada daquilo. Inerte, rente ao piso, ele sabia que o seu destino sempre fora a aventura, mas fora ensinado que ela de nada serve. Agora, ele aprendia o contrário. Não há nada mais enriquecedor do que a aventura. Foi quando ele olhou para a casa onde ficaria hospedado, e ali, no balanço de uma das redes, ele viu a mais bela das aventuras.
Ela tinha os olhos brilhantes e cheios de vida. Um sorriso largo, como se soubesse de tudo, e uma mania encantadora de colocar o cabelo pra trás da orelha sempre que soltava alguma gargalhada. Ele soube logo ali que aquela seria a sua viagem mais reveladora de todos os tempos, e que se aquela mulher fosse tão incrível quanto transpirava ser, seriam estes os melhores dias da sua vida. Não que ele almejasse de cara um romance entre estranhos, mas ele sabia que seria possível se aproximar destes estranhos, pois no final do dia, eles são todos bem mais interessantes do que ele. Eles tinham histórias pra contar. Ele tinha muitas histórias para ouvir.
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